Kiss: o chocante primeiro capítulo da autobiografia de Peter Criss
O baterista e membro fundador do KISS, PETER ‘Catman’ CRISS viveu uma vida incrível na música, das ruas do Brooklyn até as casas noturnas de Nova Iorque até os maiores picos do sucesso e excesso do rock.
Peter Criscuola percorreu um longo caminho desde a bateria caseira na qual ele batia sem parar quando era criança no Brooklyn nos anos cinqüenta. Ele passou por anos magros, violência na rua, e pela vibrante cena musical dos anos sessenta, mas ele sempre soube que se daria bem. O vindouro livro ‘Makeup to Breakup – My Life In and Out of Kiss’ é a jornada de Criss do dia em que ele jurou que um dia tocaria no Madison Square Garden até ele de fato fazê-lo. Sua autobiografia, ainda sem previsão para lançamento em português, relata os perigos do estrelato, a mortalidade vinda através do abuso de drogas, flertes com o suicídio, dois casamentos destruídos e uma dura batalha vencida contra o câncer.
O que segue agora é um trecho traduzido do primeiro capítulo da obra, que chega às livrarias no dia 23 de Outubro.
CAPÍTULO UM
[...] Eu cheguei ao mundo no dia 20 de dezembro de 1945, pelos pés, bunda pra trás, forçado. Eles não tinham cesariana naquele tempo, então tiveram que me tirar com um fórceps, igual àqueles que você usa pra saladas. Minha mãe, Loretta, disse que a coisa foi tão dolorosa que ela não quis mais ter mais filhos depois de mim. Claro, ela teve mais quatro.
Eu também era impaciente, saindo da barriga da minha mãe prematuramente, dois meses antes, uma coisinha minúscula com cabelos pretos e compridos até o pescoço. As enfermeiras ficaram assustadas comigo; elas nunca tinham visto um bebê com tanto cabelo. O legal é que eu era uma criança bastarda. Minha mãe tinha engravidado, e daí ela me teve e daí ela e meu pai se casaram alguns meses depois. Mas me pai, Joe, não estava pronto pra sossegar. Ele era um bonitão italiano que adorava dança de salão. Minha mãe disse a uma de minhas irmãs que meu pai sumira por três anos quando eu era moleque e depois voltou pra família. Mas ninguém nunca me contou isso.
Que família. Me batizaram de Peter pelo nome do pai do meu pai. Ele e a esposa dele, Nancy, se mudaram pros EUA vindos de Nápoles e se basearam em Hartford, Connecticut, onde tinham uma fazenda. Além de seus próprios filhos, eles adotaram um bando, então havia algo como vinte crianças na família. Meu pai nascera na fazenda, mas eventualmente o pai dele comprou um prédio para seis famílias no Brooklyn, onde ele arrumou emprego de pedreiro. Ele era um legítimo italiano que só falava italiano, então um dos caras do trabalho, pra zoar com ele, ensinava frases em inglês pra ele como ‘Vai se fuder, vai tomar no cu, eu gostaria de uma buceta’. Ele não entendia o que aquilo significava. Um dia ele veio pra casa do trabalho e minha avó estava cozinhando e ele disse, ‘Hey, vai se foder, chupa minha rola’. Minha avó surtou e meu pai teve que contar a ele que aquilo não se dizia, e daí o velho ficou puto e no dia seguinte foi até o trabalho e trucidou o colega de trabalho na porrada.
Eu adorava visitar meu avô. No quintal dele havia parreiras, beterrabas e tomates. Eu sentava no colo dele no quintal como se ele fosse O Poderoso Chefão. Ele tinha um chapelão, as calças grandes com o cinto, e o suéter grande com furos. Ele era alto, com 1,85, um homem muito bonito. Ele criava pombas, e no sótão ele tinha um monte de coelhos em uma gaiola que eu brincava. Minha mãe me dizia que um dia ela estava comendo o molho de massa dele e ela disse, ‘Está delicioso, Vovô. Meio gorduroso, mas gostoso. ’ Daí ela descobriu que era feito com coelho, e ela nunca mais comeu o molho deles de novo.
Ele era um cara casca-grossa. Ele não acreditava em médicos. Ele arrancava os próprios médicos com alicates. Ele era um católico fervoroso até que um dia ele foi até a igreja e pegou um padre comendo uma freira, e deu pra ele. Ele desistiu da religião depois de tomar uma dose boa de realidade. Eu realmente o amava, e tinha orgulho de ter o nome dele.
Mas eu não gostava da mulher dele, a Nancy. Ela costumava me quebrar na pancada. Minha mãe me disse que quando eu era bem novo, ela me suspendeu pelos pés e eu comecei a sangrar e eu literalmente sangrei pelo pênis. Eu me vinguei depois. Minha avó se mudou pra nossa casa mais pro fim da vida dela. Ela sentava na cozinha reclamando, boquejando, o pé sempre de molho em água com sal. Ela sempre queria as coisas, e me xingava em italiano. Um dia meu amigo Vinnie veio pra brincar de cowboy e ela ficou irritada porque estávamos nos divertindo, então fomos até a ferrovia, ficamos pelados e corremos pela casa, atormentando-a. Ela não podia fazer nada porque estava numa cadeira de rodas. Finalmente meu pai chegou em casa e ela grunhiu algo pra ele. Ele veio até nós e disse. “O que?! Você ficou pelado na frente da sua avó?”
“Por que eu faria isso, pai?”, eu disse, todo inocente. “Eu vim pra casa pra largar os livros. Almoçamos e saímos. Ela está vendo coisas.” Ela estava ficando meio senil, então ele abraçou e ela ficou furiosa. Eu me vinguei por todos aqueles anos nos quais ela abusara de mim quando eu era pequeno.
Durante minha infância, eu nunca de fato conheci o pai de meu pai, meu avô George, de quem eu também tinha herdado o nome. Ele era um gigolô que tinha abandonado minha avó quando minha mãe e o irmão dela eram bem novos. O irmão dela, meu tio George, nunca perdoou o pai dele por desertá-los. O velho mal aparecia em Nova Iorque, mas costumava me mandar coisas do mundo todo: botas de cowboy, artesanato. Ele rodava o mundo porque ele ficava se casando com várias mulheres ricas. Depois de alguns anos de casar com uma, ele casava com outra. Ele era bem esperto. Ele lia o dicionário para se divertir. Quando ele se mudou pra São Francisco na casa dos setenta, e acabou fumando com todos os professores em Berkeley, e eles deram a ele um diploma, pra que ele pendurasse na parede.
Quando eu estava morando em Canarsie com minha primeira esposa, ele veio nos visitar com essa mulher bem rica de Amarillo. Ela era colecionadora de arte. Ela tinha comprado um bar pra ele. Daí ele largou dela e fez com que outra endinheirada comprasse um restaurante pra ele em Albany. Quando ele vinha ficar conosco, ele acordava de manhã, colocava uma camisa branca e uma gravata, e colocava uma rosa do lado da mesa onde minha esposa sentava. ‘Bom dia, querida. Como você está se sentindo hoje?’ Ele conhecias as palavras mágicas.
Eu o visitei anos depois em São Francisco quando ele era muito mais velho e tinha encontrado uma mulher boa e estavam morando em um trailer. Tomamos banho juntos no chuveirão do parque do acampamento e daí ele se virou, e ele era dotado como um cavalo. Ele não tinha uma rola, ele tinha o braço de um bebê! Meu avô viu minha cara de surpresa e disse, ‘É por isso que me dou tão bem na vida. Sou um garanhão’ Eu nunca tinha ouvido esse termo antes. ‘É um homem que sabe usar seu pau. Eu nunca trabalhei um dia na minha vida, porque quando uma mulher prova isso aqui, já era’, ele explicou.
Minha avó Clara parecia nunca ter superado o fato de ele tê-la abandonado. Ela era de uma grande família irlandesa se grandes beberrões. A família dela vinha pra casa dela, ficava bêbada como um gambá, e daí ia embora. Quando meu avô chegava em casa do trabalho, eles já tinham ido embora e minha avó estava desmaiada. O problema dela com a bebida ficou de tal modo que minha mãe e o irmão dela começaram a faltar aula, e quando minha mãe completou dez anos, o estado os tomou e os colocou em um orfanato. Minha mãe odiava aquilo. Ela nunca falou muito sobre isso comigo, mas certas coisas a faziam surtar. Pro resto da vida dela, se ela chegasse a sentir o cheiro de doce em compota, ela enlouquecia. ‘Não traz essa merda pra perto de mim. Eles me serviam isso todo dia de minha vida quando eu era pequena. ’ Minha mãe nunca perdoou seus tios e tias maternos por não se manifestarem e os ajudarem antes do estado ter levado a ela e seu irmão. Eles tiveram uma vida muito dura, e quando eles finalmente foram devolvidos à mãe deles. Clara tinha parado de beber muito, eles tentaram retomar uma vida familiar normal.
E foi esse o mundo louco no qual Peter George John Criscuola foi jogado. Eu só o deixei mais louco. Eu era uma criança perturbada, e fiz minha mãe passar por um inferno. Eu pegava tudo, sarampo, caxumba, coqueluche, um testículo inchado, catapora, infecções de ouvido, a coisa toda. Eu até peguei uma lombriga do gato da minha avó. Quando entrei pra escola, eu era tão anêmico que toda semana eu recebia uma transfusão de sangue e tomava vitaminas. Eu estava zoado. Eu devo ter pesado uns 30 quilos na época, um moleque magro com uma cabeçona e olhos e orelhas enormes. Felizmente, o padre na minha escola pagou pelas consultas médicas. Nós não tínhamos dinheiro pra isso.
Quando eu não estava doente, eu estava me machucando. Quando eu tinha sete anos, minha mãe foi visitar uma amiga. Elas estavam tomando café e de algum modo eu me distanciei dela e fui pro quintal. Havia um cachorro lá. O cachorro estava comendo, e eu enfiei minha cara no que ele estava comendo e o cachorro achou que eu ia roubar a comida dele, e mordeu minha boca, arrancando metade do meu lábio superior. Minha mãe ouviu o grito e me viu sangrando tanto que me levou correndo pro hospital. Meus pais não tinham dinheiro nem plano de saúde, então era sempre pra sala de emergência, minha segunda casa no começo da vida.
Eu devo ter tido um anjo cuidando de mim, porque havia um grande cirurgião plástico da Alemanha que estava lá pra fazer uma palestra em um seminário. Ele me viu no corredor sangrando pra morrer e ele de pronto disse, ‘Tragam esse menino. ’ Eles nem me anestesiaram. Eles só amarraram minhas pernas e minhas mãos e começaram a trabalhar no meu rosto. A sensação era de um milhão de abelhas me picando no rosto. Era de alucinar, a dor era muito intensa.
Eu fiquei enfaixado por meses, comendo de canudo. Meu pai e minha avó culparam minha mãe pela presepada. Eles achavam que eu ia ficar desfigurado pro resto da vida. Finalmente, chegara a hora de tirar as ataduras. Voltamos pro hospital, os médicos e as enfermeiras me cercaram, e minha mãe roia as unhas, como sempre fazia. Eles tiraram a última gaze e eu me lembro de todos olhando pra mim – ninguém espantado por eu ser tão feio ou pelo lábio estar tão bem, eu não sabia o porquê. Minha mãe começou a chorar, e eu olhei no espelho e notei a cicatriz no lábio, mas não parecia horrenda, e com o tempo ela desapareceu completamente. Mas daquele dia em diante, eu não entraria em uma casa se houvesse um cachorro lá.
Minha mãe me mantinha por perto dela depois disso. Eu sempre estava na cama com ela: ela sempre estava segurando minha mão. Éramos inseparáveis. Com meu pai era outra história. Ele sempre estava ou trabalhando ou tentando encontrar emprego, ou estava no andar de cima no telhado com suas pombas. Ele parecia não querer se envolver com a vida de outras pessoas. Ele ficava no mundo próprio dele e ele era bem infantil, um traço que eu herdei dele. Por mais que ele fosse um garoto italiano casca-grossa, eu acho que ele estava assustado na maior parte do tempo. Ele não tinha educação. Ele tinha largado a escola depois da terceira série, então ele era analfabeto… [...]
Duran Duran: cocaína, groupies e a fama
Do recém-publicado livro autobiográfico ‘In The Pleasure Groove’ de John Taylor, do DURAN DURAN e do NEUROTIC OUTSIDERS, ainda sem título em português.
[...] É uma noite de segunda-feira, no Brighton Dome, em 1981, duas semanas antes de nosso terceiro single, ‘Girls On Film’, está pra sair. Faz uma semana que completei 21 anos. As luzes se apagam e a cortina começa a se erguer. Mas algo estranho está acontecendo.
Nenhum de nós consegue ouvir à música. Só o som da plateia. Ficando cada vez mais alto. Maior. Cantos, gritos. Daí entramos no palco. Um frisson de medo. E a cortina sobe.
O poder de nossos instrumentos, amplificado por cabeçotes que iam até o telhado, não é páreo para a avassaladora força da energia sexual adolescente que emana até nós vinda do auditório. Eu posso senti-la tomar controle de meus braços, minhas pernas, meus dedos. É incessantes, as ondas ficam atingindo o palco.
Não há modo de estarmos sendo ouvidos, mas isso não importa. Ninguém está prestando atenção pra isso mesmo. As cadeiras estão moías. Roupas rasgadas. Desmaios e macas. Colapsos nervosos. O frenesi é contagiante. Nós nos tornamos ídolos. Sujeitos de idolatria.
Havia certa escassez de casas a preços acessíveis nos anos cinquenta, então a nova casa de meus pais em Hollywood, setor Sul de Birmingham, era perfeita. Era uma casa com dois cômodos em baixo e dois em cima com paredes chapiscadas abaixo das janelas de cima.
A sala de estar era onde comíamos, assistíamos televisão, sentávamos, tudo. O outro cômodo de baixo, o ‘quarto da frente’, era onde se guardava o álcool.
O número 34 da Simon Road tinha sua própria garagem, onde meu pai assava semanas brincando com seu carro. Havia um pequeno jardim na frente e outro um pouco maior no lado de trás. Em junho de 1960, minha mãe me deu a luz no Sorrento Maternity Hospital em Solihull. Meus pais me chamaram de Nigel. Meu segundo nome era John.
Eu conheci Nick Bates no inverno de 1973 quando eu tinha 13 anos e ele tinha 11. Nick já tinha ido a alguns shows – sim, esse garoto era precoce – Gary Glitter e Slade. Mas Bowie era rei naquele tempo, e com mérito.
Nick e eu nos vestíamos muito bem sem precisar de muito encorajamento, e nós dois amávamos as roupas, os cabelos e a maquilagem da era glam-rock britânica. A direção sartorial de Bryan Ferry estava surtindo efeito: os garotos estavam vasculhando o guarda-roupa do pai atrás de paletós como aqueles que Humphrey Bogart vestira em ‘Casablanca’. Os do meu pai caíam direitinho em mim.
Mas havia o aspecto transexual do glam, e a gente acabava misturando o terno com blusas de mulher. Nas lojas da rede British Home Stores, no centro da cidade, havia um andar enorme repleto de ternos de duas peças para mulheres. Alguns daqueles paletós eram divinos, e serviam em Nick e em mim. Combine isso com um lenço, talvez de estampa de pele animal da Chelsea Girl, e já era.
‘Você não vai sair vestido assim?!?’ nossos pais gritavam.
‘Não se preocupe com isso, pai’, Nick dizia pro pai dele enquanto eu passava um pouco de gloss no banheiro deles.
‘Ah, deixe eles em paz, Roger’, a mãe dele, Sylvia, dizia. ‘Eles estão apenas se divertindo. ’
Depois de dizer a um funcionário cético da escola de carreiras que eu queria ser um ‘pop star’, eu me matriculei na Escola Politécnica de Arte e Desenho de Birmingham para um curso de 12 meses.
Pra mim, ir pra escola de arte era inspirado mais por meus heróis musicais: John Lennon, Keith Richards, Bryan Ferry. Eu esperava conhecer outras mentes que se sintonizassem com a minha, tal como eles haviam conhecido.
Assistir ao The Human League pela primeira vez foi a virada. Nick e eu os vimos abrindo pra Siouxsie and the Banshees no Mayfair Ballroom no shopping Bullring e assistimos a tudo em silêncio, maravilhados. Eles não tinham baterista. Nem guitarra. Eles tinham três sintetizadores e uma bateria eletrônica ao invés disso.
Daí a mão de Nick, Sylvia, fez um investimento de 200 libras no primeiro sintetizador Wasp a chegar em Birmingham, comprado na Woodroffe Music Store. Nós também compramos uma bateria eletrônica Kay a 15 libras. Tinha uns presets descritos como ‘mambo’, foxtrot’, ‘slow rock’ e ‘valsa’.
Com Nick controlando os teclados, um amigo da escola de arte cantando e no baixo, e eu na guitarra, nós fizemos nossa primeira gravação em fita cassete no cômodo acima da loja de brinquedos da mãe de Nick. O ‘álbum’ que resultou disso se chamava ‘Dusk And Dawn’.
Eu tinha orgulho dessa primeira empreitada e decidi apresentá-la como meu trabalho de conclusão de curso na escola. Cada estudante tinha um espaço no saguão principal para expor os frutos de seu trabalho. Eu cobri minha parede com um saco de lixo preto e coloquei a fita na frente dele.
Teve um certo barulho quando o corpo docente chegou até minha apresentação. O professor Grundy pegou a fita com cuidado.
Grundy: ‘E o que seria isso, exatamente?’
Eu: ‘É o que tenho feito nos últimos seis meses. ’
Grundy: ‘E o que você espera fazer com isso?’
Eu: ‘Assinar um contrato.’
Grundy: ‘Isso não tem muito a ver com seu curso, tem?’
Eu: ‘E por que deveria? Isso é arte porque eu digo que é. ’
Grundy: ‘Bem, fico feliz que você tenha aprendido algo em seu tempo aqui, Nigel. ’
Foi meu último dia na academia.
No encarte do cassete, eu apareço sob meu nome de batismo, Nigel. Logo depois, eu decidi que um pop star soava melhor como John Taylor do que como Nigel Taylor. Eu estava de saco cheio de Nigel fazia anos. Fui muito zoado por esse nome. Naquele quadro do Monty Python, ‘Upper Class Twit Of The Year’, o maior otário de todos era chamado de Nigel. Nigel tinha que ir embora. Mas John – Johnny – era um roqueiro.
Era mais do que escolher um pseudônimo. Eu não queria ser chamado de Nigel por ninguém: a banda, meus amigos, minha família. Demoraria anos até que minha mãe aceitasse o plano de John.
Nick e eu éramos um só nessa linha de pensamento. No caso dele era o sobrenome, Bates, que destoava. Rhodes parecia ter a mistura exata de cultura alta e baixa, tal como emanava do empresário do The Clash, Bernie, e da sacerdotisa da moda, Zandra.
Simon Le Bon era um estudante de teatro alto e eloquente da Universidade de Birmingham. Ele veio nos ver ensaiar carregando um caderno azul com letras e ideias para músicas e eles escutou enquanto nós tocávamos, fazendo anotações. Daí ele se levantou, e com seu 1m88, agarrou o microfone, e começou a cantar.
Eu escrevi em meu diário aquela noite: ‘Finalmente o frontman! O astro está aqui!’
Com Simon de vocalista, a formação estava completa: Andy Taylor na guitarra, Roger Taylor na bateria, Nick Rhodes nos teclados. E eu, no baixo.
Nós acertamos um show nas luzes de neon e de MirrorFlex do Rum Runner Nightclub, de Birmingham. Na quarta-feira, 16 de julho de 1980 – nosso primeiro show.
Simon se dirigiu à plateia: ‘Somos o Duran Duran, e queremos que vocês dancem com nossa música quando a bomba atômica explodir. Essa música é Late Bar. Nós a escrevemos para que vocês dancem. ’ Roger mandou ‘1-2-3-4’ e a gente começou.
Olhando pras fotos daquele primeiro show, eu fico atônito com o quão eclética e ultrajante aquela cena era. Todo mundo tinha tingido, cortado ou raspado seu cabelo. A maioria usava maquilagem. Bem padrão para uma noite de terça em 1980.
Turnês e nosso primeiro disco logo vieram. A as cartas dos fãs. Nós nos reuníamos no Rum Runner à tarde e sentávamos ali fazendo mais dever de casa do que jamais tínhamos feito na escola, assinando fotos e escrevendo respostas pras cartas.
Os fãs fizeram algumas coisas bem loucas ao longo dos anos, mas a minha favorita foi a da garota de Atlanta, que estava em uma coletiva de imprensa. Eu estava resfriado, e assoando o nariz em lenços descartáveis, e os jogando em uma cesta debaixo da mesa.
Na outra vez que chegamos à cidade a moça me intimou em outra aparição em público: ‘Eu fui a moça que pegou seu resfriado… depois que você saiu da sala de imprensa, eu roubei seus lenços usados. Eu queria pegar o seu resfriado. ’
Eu tinha sido um nerd na escola, nunca tinha tido uma namorada séria. Agora, eu só tinha que piscar para uma mulher num lobby de hotel, na coxia, ou na festa da gravadora, e ter companhia até a manhã seguinte.
Então qual é o problema, você pode perguntar? Bem, o problema é – e eu não descobri isso até que eu tivesse quase 40 anos de idade – que há algo em um encontro íntimo dessa natureza com alguém que você mal conhece que açoita o espírito. Você quer aquilo, mas fica a sensação de que não é certo. E quando você começa a fazer isso noite após noite, semana sim, semana também, suas ideias sobre amor e sexo começam a ficar distorcidas.
Em turnê, eu aprendi que as mulheres gostavam de usar drogas comigo. Meu horror de quartos solitários de hotel significava que eu poderia ir a qualquer extremo para evitar dormir sozinho neles. Eu era ídolo de milhares de pôsteres em paredes, mas o medo da solidão me deixou viciado em cocaína.
Pular na cama como Johnny, o astro pornô, não é fácil como você pode imaginar. Você se sente acuado. Pelo menos eu me sentia. Talvez fosse algum resíduo da culpa católica: Ou simplesmente decência? As drogas tiraram todas essas dúvidas.
Algo de absoluta necessidade para qualquer músico que excursiona é o itinerário. Geralmente chega no último dia de ensaio. E lista todo mundo que está na equipe, os telefones pra se ligar quando em apuros, e daí uma descrição de página por página dos destinos.
No canto inferior esquerdo de cada página da programação para o trecho da turnê nos EUA havia um número, geralmente 18, 21 ou 20. Passaram-se meses até que me contassem o que era: os números se referiam á idade legal para prática de sexo consentido em cada estado da federação.
Eu presumia que os poderes de atração sobre as mulheres dos quais eu desfrutava continuariam quando eu estivesse em casa. Isso acabou não sendo o caso. Há algo sobre estar em uma banda viajante que age como afrodisíaco. Talvez seja estar numa cidade apenas por 24 horas; as garotas querem que você seja rápido.
Na Inglaterra, meu agente Rob e eu ficávamos no zero a zero na maioria das noites. A gente começava a noite cheirando a loção pós-barba, laquê e otimismo, mas ‘nossas brechas’ se tornaram meio que uma piada. Anos depois, um conhecido dono de boite, disse: ‘A gente achava que vocês eram gays’.
Eu tinha me acostumado a viajar num ritmo estratosférico, e eu queria que aquilo nunca acabasse. Sentar na sala de estar de minha casa em Knightsbridge e assistir TV ou chamar meus amigos pra jantar era banal demais. Além disso, havia sempre um acampamento de fãs 24 horas em frente à casa urrando e batendo fotos cada vez que eu chegava em casa.
A primeira coisa que eu ouvia quando acordava era a conversa dos fãs do lado de fora. Eu ia até a janela e olhava pelas cortinas. Se elas não sabiam que eu estava acordado, eu podia pelo menos toar um banho e me vestir sem ter que ouvir ‘Save a Prayer For Me Now, John’ vindo da rua.
A loucura sempre estava a um mícron abaixo da superfície, mantida de perto pelo nosso senso de humor compartilhado. Somente Andy fazia referência de vez em quando ao azedume no qual ele sentia que estava entrando, de que éramos ratos em uma gaiola, sujeitos aos caprichos dos empresários, dos agentes e consultores corporativos. Éramos patrocinados pela Coca-Cola.
Eu passei dos limites quando comecei a ficar chapado no palco. Eu sempre tinha ficado sóbrio durante o show, já que queria dar o melhor de mim. Mas agora eu mal podia esperar pra que os shows acabassem. Eu queria reganhar o controle de minha vida, e me drogar fazia com que eu me sentisse assim.
No fim de cada set principal, eu ia pros banheiros do palco cheirar até 100 dólares de cocaína através de um canudo de uma nota de 100 dólares. Era tão ‘alta roda’, tão ‘astro do rock’.
E eu dizia a mim mesmo que ela me dava a capacidade de absorver toda a incrível energia que a plateia estava me mandando. Eu era um Mestre do Universo. Pelo menos parecia isso. Quando o bis acabava, eu estava pronto pra mandar ver.
O álcool e as drogas estavam começando a me dominar, não apenas das decisões e escolhas que eu fazia, mas também com quem eu andava. Um dos piores efeitos disso era que eu não queria mais ficar do lado de Nick, meu amigo mais antigo, simplesmente porque ele nunca apoiou meu hábito. Nick simplesmente não era um usuário de drogas.
De volta ao estúdio em 1983, estávamos nos fechando a todos em nossa volta. Quando foi anunciado em uma manhã que mudanças haviam sido feitas em um dos arranjos de ‘Seven And The RaggedTiger’ e eu era solicitado no estúdio, eu pirei. Eu estava me barbeando no banheiro. Em um momento de reação exagerada, eu peguei um copo pesado e mandei na porta de vidro do chuveiro, a quebrando em um milhão de pedaços. ‘Aquela música tinha sido terminada! Eu acabei! Já terminei minha parte!’
Era o começo de uma fissura que se aprofundaria ao longo dos dois anos seguintes: Andy e eu de um lado, Simon, Mick e nossos empresários do outro. Roger meio que se equilibrava entre os dois.
No ano seguinte, eu estava ansioso para me desprender de meu personagem Duran. Meus pais estavam tão animados em me ver, claro, mas o que tinha realmente deixado eles felizes, ou que eles queriam me mostrar no momento que eu saísse do carro, eram quatro sacos gigantes de correspondência que o correio tinha entregue na véspera de Natal.
Cartas das fãs. Cartas de amor. Pedidos de esmolas. De favores. Quem sabia? Por onde eu começava?
Eu estava bobo por 10 mil pessoas quererem uma relação comigo e eu mal conseguia ter uma relação comigo mesmo.
E esse dois guardiães dos malotes dos correios: Eles pareciam ser meus pais. Mas eles pareciam dois fãs que agora de algum modo tinham entrado na minha casa e tomado o corpo de meus pais. Invasão Alienígena de Corpos!
Eu não aguentava. Eu esvaziei todos os sacos em um surto, tacando o conteúdo no chão, despedaçando as cartas e os cartões pela garagem, babando, rasgando os envelopes fechados. Meus pais assistiram à violência, de queixo caído.
‘Vocês não entendem? Eu tô pouco me fudendo pra tudo isso!’
Depois do peru no jantar, eu fui de carro de volta pra Londres e marquei um vôo para Nova Iorque no dia seguinte. Hotel. Serviço de quarto. Coquetel. Uma carreira ou duas. Melhor.
Sozinho no começo da manhã, eu achei que precisava de salvação espiritual. E à medida que a alvorada aparecia, era St. Jude, a escola católica de minha infância que preenchia minha imaginação. Eu tinha que escrever uma peça para coral para o Padre Cassidy, nosso diretor!
Na mesa, entre as bebidas inacabadas e cinzeiros transbordando, estavam restos de raspa de cocaína. Era uma corrente circular: cigarro, bebida, drogas, casa um me fazendo querer o outro. Quando eu começava com um, o sistema me prendia pelos dentes. Uma carreira e eu já era, vamos mandar. Eu não estava mais no controle do caos.
O que restava do suprimento daquela noite esperava em um envelope branco. Eu liguei pra minha mãe.
‘Oi John, aonde você está?’
‘Nova Iorque, mãe, no apartamento.’
‘Que bom. Seu pai foi pegar o jornal.’
‘Mãe, eu preciso do telefone do padre Cassidy. Eu quero escrever uma música para a igreja’.
‘Tem certeza?’
Ela me deu. Eu só tinha cocaína para aguentar mais uma ligação. O padre Cassidy não atendeu, graças a Deus.
Na véspera do Natal de 1991, eu me casei com Amanda de Cadenet no Cartório de Chelsea na Kings Road. Amanda era loira de olhos azuis, e parecia um anjo.
Depois de alguns meses que nos conhecemos, ela conseguiu um emprego apresentando um programa noturno de música e cultura chamado The Word. Ela era naturalmente conectada.
Os planos de carreira dela pareciam, a meus olhos acostumados com tudo, envolvia ir a muitas festas ou ter jantares íntimos a dois com astros do cinema em suas casas em Mullholland. Eu não me sentia bem com aquilo. Eu estava sentindo o peso da idade.
Eu comecei a desgostar daqueles que pareciam, do lado de fora, ter uma vida familiar normal. Eu estava com raiva porque eu não conseguia fazer esse lado da minha vida funcionar. Simon tinha sido controlado com sua família. Suas três filhas tinham vingado. A família dele adorava passar tempo na companhia um do outro.
Sim, Amanda e eu tivemos nossa própria filha, Atlanta, mas não conseguíamos baixar o facho. Quando a novidade de brincar de casinha se desgastou, nós voltamos a nossos hábitos antigos.
Amanda era uma década mais jovem do que eu, e ela estava apenas entrando na briga de cachorro grande, nos milhões de pequenas seduções que se exige para fazê-la famosa. Quando eu voltava pra casa, eu queria relaxar, e ela saía. Não estávamos no mesmo planeta.
Eu entrei numa clínica de desintoxicação nos EUA, não com a intenção de fazer meu casamento dar certo. Eu já tinha desistido dele. Eu imaginava a racha entre Amanda e eu, era grande demais e nossos problemas, insuperáveis. Eu era acostumado demais a querer um modo fácil de lidar com as coisas, e se não dava pra lidar com elas facilmente, então eu não lidava com elas de modo algum. Então meu casamento com Amanda nunca teve o benefício de minha sobriedade, apesar de nossa separação tê-lo tido sim.
É 20 de abril de 2011 e o Duran Duran está em turnê de novo – Roger, Nick, Simon e eu.
Nós percorremos um longo caminho juntos e muito mudou nos últimos 30 anos. Celulares. Computadores. SUVs. Cortadores de pêlos de nariz. Suplementos. Umidificadores nos quartos. Saunas e academias. Massagem antes do show. Twitter, Spotify e Amazon.
Sair em turnê com 3 mil músicas em meu bolso e 30 livros em um iPad. Terapia pelo Skype. Café bom em todo canto. Outra diferença está lá fora, onde há tantos homens quanto mulheres na plateia hoje.
Uma brisa perfeita faz com que meu cachecol Buddha voe. Todos os sinais são bons. Caminhamos juntos pela rampa. Nick primeiro, em uma rede preta pra cabelo emprestada de Lady Gaga.
As baquetas de Roger começam. Uma contagem de oito e eu entro com ele, o balanço galopante que começou tudo pra mim.
Trinta mil jovens californianos, olhos e dentes sorrindo, câmeras e celulares brotando, um milhão de pequenas seduções de uma só vez. [...]
Keith Richards: o surreal encontro com Ace Frehley
O editor estadunidense JEREMIE RUBY-STRAUSS, que já colaborou com as memórias mais vendidas do rock mundial – incluindo ‘The Dirt’ do MÖTLEY CRÜE e ‘No Regrets’ de ACE FREHLEY, contou ao site Slushpile o que ocorreu quando o ex-guitarrista do KISS conseguiu se encontrar com seu maior ídolo, KEITH RICHARDS, dos ROLLING STONES.
“Jamais esquecerei nosso primeiro encontro”, ele disse. “Ele contou duma história de querer conhecer Keith Richards, mas nenhum dos dois conseguia ficar fisicamente de pé – então ambos foram içados mecanicamente por seus assistentes para que pudessem apertar a mão um do outro, rapidamente, antes de desabarem de novo”.
Se for de consolo para o Spaceman, há uma grande chance de Richards nem se lembrar disso ter acontecido. Frehley fez uma homenagem a Richards em disco também, assumindo os vocais do Kiss para uma versão de ‘2000 Man’ dos Stones.
Ratt: autobiografia de Pearcy terá ‘muito sexo e quantidades inacreditáveis de drogas’
O célebre editor literário Jeremie Ruby-Strauss falou com Thomas Scott McKenzie, autor do recente “Power Chord: One Man’s Ear-Splitting Quest To Find His Guitar Heroes” [ainda sem título em português] sobre a história e o futuro da moda das autobiografias de músicos de Heavy Metal, sobre trabalhar com Ace Frehley [KISS] e detalhes sobre a vindoura autobiografia de Stephen Pearcy do Ratt.
Ruby-Strauss, editor da Gallery Books, uma subsidiária da Simon Schuster, trabalhou anteriormente com Marilyn Manson e com o Mötley Crüe na elaboração de “The Dirt: Confessions Of The World’s Most Notorious Rock Band”. Mais recentemente, ele trabalhou com Ace Frehley em “No Regrets: A Rock ‘N’ Roll Memoir”, além de ter recém adquirido os direitos do livro de Pearcy.
Sobre o que os fãs podem esperar do livro do vocalista do Ratt, ele respondeu: “Haverá muito sexo, quantidades inacreditáveis de drogas, e claro, muito Ratt and roll. Daí o título provisório, ‘Sex, Drugs, Ratt Roll: My Life In Rock’. Também há passagens sobre coisas como ele ter quebrado as duas pernas quando garoto e tudo mais, mas você não está mais intrigado em saber do sexo e das drogas?”
O eterno titular da cadeira de vocalista do PANTERA, PHIL ANSELMO, homenageou seu finado e influente colega de banda, o guitarrista DARRELL “DIMEBAG” ABBOTT nesse 20 de Agosto, quando o músico – morto pela mais fidedigna definição de ‘corno’ numa apresentação em 2004 – estaria completando 46 anos de idade.
Num de seus bissextos posts no Twitter, Anselmo [atualmente liderando o DOWN], declarou:
“Sempre em nossas mentes e corações Dimebag Darrel, nós te amamos, irmão!”











